O pássaro rompe a casca do ovo. O ovo é o mundo. Aquele que quiser nascer tem que romper um mundo. Hermann Hesse
Pretendo neste projeto compartilhar o meu processo de criação em dança por meio do conceito de desmontagem que vem da tradição artístico-pedagógica latino americana da Escola Internacional de Teatro da América Latina e Caribe (EITALC), criada em Havana (Cuba). A desmontagem era uma das práticas deste encontro, onde o artista compartilhava o seu processo de criação em teatro e pretendo usar essa prática metodológica em dança, podendo se conectar com outras linguagens artísticas.
Não existe um método para as desmontagens, não é possível fixá-las em um esquema que ossifique o corpo vivo da cena ponto cada criador elege as estratégias a partir das quais se pode acender ou retornar a esse encontro reflexivo e ao mesmo tempo artístico com seu próprio material ponto através de diversas experiências as desvantagens têm integrado o discurso pedagógico, as demonstrações verbalizadas, as explicações teóricas e também tem se materializado como desinblagens visuais e conceituais ponto de uma ou outra forma, constituem formas cênicas que procuram tornar visíveis as filosofias da decomposição.(Diéguez, 2018, p. 19).
Quando o artista apresenta sua obra, vemos o resultado final, enquanto na desmontagem, a apresentação está diretamente relacionada aos caminhos percorridos antes da obra finalizada. Então, o artista se desnuda perante seus questionamentos, mostra a sua magia, compartilha as suas fragilidades e suas forças quando ele resolve dividir as suas práticas criativas com o público.
A OBRA REVISITADA
Na Bahia, descobri o curso técnico em dança na Fundação Cultural da Bahia – FUNCEB, por indicação da professora Martha Saback que me aconselhou a fazer dança e para ingressar na escola, o candidato passa por uma seleção com três dias de audição. No primeiro dia foi uma aula de ritmo, naquele momento tentei me aproximar ao máximo do que era proposto e eu estava focado. Sentamos no chão e alguns professores começaram a chamar os números grudados em nossas camisetas, os números chamados seriam os selecionados para a próxima etapa, posteriormente, fui selecionado para a aula de balé, eu tinha feito algumas aulas de balé com Ricardo Risuenho em Belém do Pará e com amigos na Bahia.
No segundo dia, com a roupa que foi exigida para aula — uma calça preta, camiseta branca e sapatilha, — passei na seleção do segundo dia. No dia seguinte, que seria o terceiro dia, era o dia de improvisação. Existiam camadas em mim que me deixaram seguro para seguir para a próxima etapa, pois fiz muitos exercícios de improvisação na UNIPOP, direcionados por Olinda Charone. A banca examinadora escolheu para improvisar os quatro elementos da natureza: fogo, terra, água e ar. Imediatamente escolhi o elemento terra e neste momento meu corpo como elemento comunicativo foi acionado por dispositivos fotográficos e teatrais, o corpo como imagem expressiva, usando os níveis médios e baixos.
Naquele momento, percebi que a banca levantou para me olhar, eu simplesmente estava vivenciando a terra através de um vocabulário existente, resultado do meu percurso artístico iniciado em Belém do Pará.
As aulas iniciaram em um casarão reformado de três andares no Pelourinho, fazíamos aulas de balé com piano, aulas de balé moderno e contemporâneo, com músicos percussionistas.
Na disciplina de processos criativos em dança do curso técnico, na qual a minha professora era Cristina Castro, que posteriormente virou minha coreógrafa — mas isso é outra história. Nesta disciplina, Cristina nos deu como exercício que observássemos os movimentos do cotidiano; escolher um movimento e interpretá-lo da nossa maneira e criar um solo.
Contarei a história do solo chamado “Adams” e para falar dele, volto ao início dos anos 90, quando cheguei a Belém do Pará e vou fiz a oficina de fotografia na Fotoativa, lugar referência da fotografia nacional e internacional e quem ministrava naquela época as oficinas era Miguel Chikaoka, fundador da Fotoativa e criador de uma prática educativa, que por meio do ensino da fotografia análógica, que é um método de sensibilização do olhar que nos leva ao lúdico e neste percurso criamos a câmara escura, pinhole e fotogramas. Esta tríade fez com que o meu olhar fosse expandido como uma lente grande angular, ou seja, eu estava imerso em toda essa região Amazônica por meio da fotografia, com imersões durante 4 meses de oficinas. Durante este período eu fui “FOTOATIVADO”, conceito de um corpo que foi ativado por intermédio da fotografia; um corpo que está atento ao mundo e a todas as artes e que necessariamente tem que passar por esta imersão na Fotoativa. O Corpo fotografa, cria imagens, registra e quando esse corpo registra ele se transforma.

Figura 1 – Corpo Fotoativado: Depois de Revelada Nada Mais Muda – Resultado da Bolsa de Pesquisa Experimentação em Dança do Instituto de Artes do Pará. Foto: Arquivo pessoal.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano vertical. Em ambiente neutro, um corpo humano é apresentado em composição expressiva. O performer ocupa o centro da imagem, com postura que evidencia relação entre movimento e imagem. O enquadramento destaca o corpo como elemento principal, sugerindo experimentação sensorial e estado de atenção.
CRIAR ATRAVÉS DO OLHAR
Com este corpo Fotoativado, ao começar a observar as ruas, percebi um rapaz com uma roupa, talvez de uma pessoa que trabalhava em um banco ou em algum lugar burocrático, que exige essa formalidade — calça, camisa, sapato social e gravata. Foquei neste rapaz que estava com Chiclete grudado no seu sapato e ele estava tentando tirar esse Chiclete e para ele, naquele momento era como se fosse um uma humilhação aquele Chiclete grudado, dava para perceber o constrangimento e angústia de ter algo que o prendia ao chão. Comecei a observar como um frame a frame, enquadrando com o olhar naquele momento e comecei a perceber a mudança corporal deste jovem para tirar o Chiclete. Ele fazia movimentos repetidos com os braços e pernas, olhando para todos os lados, inseguro com o olhar das pessoas ao redor. Os braços se movimentavam às vezes rápido e se expandiram, longos e virtuosos. Sua cabeça abaixava até o seu sapato para ver se o Chiclete tinha saído e ele voltava e olhava todo mundo ao redor para ver se todos estavam olhando. Somente eu estava com foco nele, as pessoas passavam e era como se ele não existisse naquele momento. Nesse processo de observação percebi que ali havia material para o meu solo.
Ao chegar em casa procurei músicas para compor o solo, naquela época eu estava ouvindo muito a trilha sonora do filme ‘A Lista de Schindler’, uma trilha melancólica, com um violino denso, selecionei uma das músicas e comecei a lembrar da movimentação do rapaz e fui recriando os movimentos na música escolhida. Neste processo de criação do solo, repassei inúmeras vezes, para registar no corpo a imagem, movimento e música, como se meu corpo fosse um papel fotográfico em branco e quando recebe um feixe de luz em sua superfície revela a imagem, como um fotograma. Apresentei aos professores e todos aplaudiam e sorriam muito felizes com meu trabalho e eu nem esperava, mas ao mesmo tempo estava seguro do que eu tinha criado.

Figura 2 – Adams na sua segunda versão – Solo Adams apresentado na Mostra de alunos de Graduação em Teatro da UFBA no ano de 2001. Foto: Acervo Pessoal.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano vertical de cena teatral. Um performer está em destaque no palco, executando movimento corporal que sugere tensão e repetição. Ele veste figurino formal, composto por calça, camisa e sapatos. O corpo inclina-se em direção aos pés, indicando ação de tentativa ou esforço. O fundo é neutro, com iluminação focada no intérprete.
Após a apresentação, o professor de dança moderna, Paco Gomes me abraçou e disse que o meu solo era muito bonito e que era muito Pina Bausch. Agradeci mas naquele momento eu não sabia quem era Pina Bausch, eu não tinha essa referência. Então, fui para a biblioteca da Escola de Teatro da UFBA. Naquela época não existia Google e as pesquisas dos títulos dos livros eram feitas no sistema interno dos computadores da biblioteca. O processo consistiu em buscar pelo nome da autora, pegar uma ficha com as informações e levar à bibliotecária, que me entregou a Barça com uma breve história de Pina Bausch. Após conhecer sua história, fiquei tão fascinado, que queria ser ela; queria dançar para ela; ir para Alemanha. Então, naquele momento surgiu um solo Adams, que faz referência ao nome da marca Chicletes.
No dia seguinte, na aula de Cristina Castro, ela deu o feedback para todos os bailarinos que fizeram solos e sugeriu que o figurino do Arnaldo Antunes fosse uma roupa meio nerd, com calça, camisa e gravata. E sim, era esse figurino que eu vi daquele jovem. Logo, Adams se transformou em um nerd, neste personagem que realmente eu tinha visto na rua, esse personagem que tem que vestir uma roupa formal e que esse vestível seria o Chiclete que nos prende, que não nos permite ficar à vontade.
Posteriormente, como bailarino oficial na companhia Viladança, tivemos uma montagem em parceria com o Goethe Institut da Bahia e Companhia Viladança com a coreógrafa Helena Waldmann da Alemanha e a coreógrafa Cristina Castro do Viladança. Percebi que Adams poderia contribuir para o espetáculo “Headhunters”, sugeri para Cristina se eu poderia mostrar o meu solo para Helena e Cristina concordou. Apresentei e Adams foi aprovado para entrar na montagem, logo Helena me entregou uma máscara de borracha com nariz enorme, assim seria Adams neste espetáculo que se transformou em um personagem grotesco, monstruoso e violento. A movimentação coreográfica era a mesma, mas a intenção e carga emotiva, foi completamente diferente dos outros dois Adams.

Figura 3 – Adams adaptado para o espetáculo Headhunters – Adams adaptado para obra “Headhunters” coreografia de Cristina Castro e Helena Waldmann. Foto: Márcio Lima.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano vertical de cena teatral. Um performer ocupa o centro do palco utilizando máscara com traços faciais exagerados, incluindo nariz proeminente. O corpo apresenta postura expressiva, com tensão nos membros. O figurino e a máscara criam aparência grotesca. A iluminação é baixa, destacando o corpo em contraste com o fundo escuro.
A obra torna-se presente com adaptação ao tema do espetáculo que sobrepunha a personagem anteriormente criada. Adams se apresenta como um método/exercício de criação coreográfica, construindo camadas e compondo um escrita coreográfica de ações para potencializar o estado do corpo.
Voltei a Belém em 2008 e fundei a Cia de Investigação Cênica, em 2009 ganhamos o primeiro prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, logo, começo a montar um trabalho que se chamava “TAOBONITODETAOFEIO” e trago para cena a discussão do que é feio e bonito, baseado nos livros de Umberto Eco, a História da Feiura e a história da beleza, convido bailarinos, atores, músicos para trabalhar comigo e uma das atrizes foi Alessandra Nogueira, que tinha experiência como palhaça e fazia parte do Grupo Palhaços Trovadores, dirigido por Marton Maués em Belém do Pará.
Convidei Alessandra para dançar na Cia, eu queria muito dar um solo para ela e passei a movimentação do espetáculo Adams, após algumas repetições, perguntei para Alessandra: “O que seria este Chiclete que nos prende e angústia?
Ela respondeu: “Por ser mulher negra e algumas pessoas cobram dela um cabelo liso”. Foi então que falei para ela jogar com Adams, ou seja, assumir o movimento e transformá-lo no seu corpo com essas suas angústias.

Figura 4 – Adams interpretado pela atriz Alessandra Nogueira em Tão Bonito De Tão Feio – Espetáculo “Taobonitodetaofeio”, com direção de Danilo Bracchi, ano de 2009. Foto: arquivo pessoal
Audiodescrição da imagem: Foto em plano vertical de performance solo. Uma bailarina ocupa o espaço central da cena, com corpo em posição expressiva que sugere tensão e resistência. O figurino remete a vestuário formal, adaptado ao corpo da intérprete. O gesto corporal indica enfrentamento e concentração. O fundo é simples, com iluminação direcionada ao corpo.
Alessandra criou o solo dela, baseado na movimentação de Adams, neste sentido observei que este método pode servir não somente para dança, mas também para outras linguagens da cena como indutora para criar partituras corporais. A obra esgarçada, como processo de transformação, a obra em outros corpos, outras vivências, angústias, vontades e fragilidades.
Apliquei este método em uma aula com bailarinos homens, todos pegaram a movimentação de Adams e reproduziram a coreografia em seus corpos e dançamos juntos, mas a minha única indicação era para que todos dançassem em sintonia como um cardume de peixes, não precisava que a movimentação fosse igual, mas com intenção e sintonia. Outra experiência com Adams, foi uma metodologia aplicada como processo de criação de cena e experimentação em dança trazendo fluidez e sintonia para o grupo.

Figura 5 – Adams interpretado por Bailarinos no espetáculo homens. Imagem: Ícaro Gaya.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano horizontal de cena coletiva. Um grupo de bailarinos ocupa o palco, distribuídos no espaço em diferentes posições. Os corpos executam movimentos simultâneos, com variações de uma mesma base coreográfica. A composição sugere sincronia e fluxo coletivo. Todos estão descalços, em ambiente com iluminação cênica.
Em 2015 recebi um convite do Felipe Cortez, que na época era apresentador do Programa ‘Circuito’, para falar sobre videodança e nessa matéria eu fui entrevistado e ao final, recebi o convite para fazer uma videodança com o apoio da TV Cultura. Convidei diferentes artistas para dançar, entre eles, Cléber Cajun, ator e performer, o músico e ator Armando Mendonça e Bboy Nicolas Petrelli.
Passei a movimentação de Adams para os artistas e repetimos algumas vezes, naquele momento não precisava ser um movimento igual, mas achar uma sintonia entre os três corpos; achar o nosso “Chiclete”. Sem saber, eu estava desmontando Adams, mostrando como criei cada movimento para o solo, observando uma pessoa na rua com Chiclete grudado no seu sapato, logo após dançamos com a música original do solo, uma música da trilha sonora do filme ‘A Lista de Schindler’ e depois repetimos sem música.
Depois de várias repetições, Armando Mendonça levou o seu violino inseparável e falei para Armando: “Armando, pegar o violino e transformar em música a movimentação de Adams”. Ele criou na hora e falou que era bem mais fácil produzir dessa forma uma trilha para dança. Ou seja, um músico que naquele momento estava dançando e vivenciou no próprio corpo o que ele musicou: a dança antes da música.

Figura 6 – Adams na Videodança Rebuçado – Videodança “Rebuçado” direção de Danilo Bracchi. Foto: Acervo Pessoal.
Audiodescrição da imagem: Imagem em plano horizontal de videodança. Três performers estão distribuídos no espaço, interagindo entre si e com o ambiente. Os corpos apresentam movimentos variados, com gestos amplos e dinâmicos. O enquadramento valoriza a relação entre dança e câmera. O cenário sugere um ambiente não convencional, com luz natural ou difusa.
DESMONTAR PARA RECRIAR
Em Campinas, fui ver alguns artistas desmontarem os seus trabalhos e um amigo me falou que a desmontagem era o que eu fazia no meu trabalho “Uma Coreografia Para Minha Calça”, que foi um desdobramento do resultado da bolsa de pesquisa do Instituto de Artes do Pará, de 2013.

Figura 7 – Adams em Uma coreografia para minha calça – Espetáculo “ Uma coreografia para minha calça” direção: Danilo Bracchi ano de 2014 no Espaço Reator. Foto: Dudu Lobato.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano vertical de performance. Um performer interage com peças de vestuário que se destacam na composição. As roupas apresentam formatos não convencionais e são utilizadas como elementos cênicos. O corpo está em posição ativa, manipulando o figurino. O ambiente é cênico, com iluminação direcionada.
A proposta deste trabalho seria um encontro com artistas da fotografia, audiovisual e dança, como resultado seria uma exposição fotográfica mostrando imagens de um bailarino em produção como figurino o disparador de movimento. Em parceria com a figurinista resolvemos fazer vários vestíveis que seriam chamados de calça, mas que não obrigatoriamente seriam calças convencionais. O corpo compõe um personagem através das calças fazendo conexão com o Adams, que vestiu figurinos diferentes em cada momento apresentado. Neste espetáculo “Uma Coreografia Para Minha Calça”, eu contava histórias de cada calça e o que cada calça naquele momento me fez pensar como o Danilo Bracchi artista, performático fotográfico e FotoAtivado.
Jacques Derrida, afirma que a obra, a câmara clara, acompanhou Roland Barthes em sua morte como”[talvez] nenhum outro livro tenha acompanhado o seu autor” (Derrida, 2008,p.69).Vejo uma analogia entre a dinâmica da repetição dos objetos denominados como e a compreensão de Barthes de que aquilo “que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente (Barthes, 1984, p.13)
O instantâneo fotográfico registra o passado. Entretanto, as imagens nos olham e apelam para a nossa interação com ela. Aposto na desmontagem como uma espécie de memento vitae. Como exercício da vida retomada em cena da consciência de que a vida mesma pulsa além da finitude em processos de memória. Gonçalves,2018,p.158)
Neste dia, no Espaço Lumi, presenciei diferentes formas de desmontagens, uma atriz performa sobre a construção da sua personagem de um texto de Tchekhov, em outra desmontagem a atriz demonstra o seu processo de criação e de produção do monólogo criado. O artista pode na sua desmontagem falar de processo de produção, criação do figurino, da luz, e sobre a dramaturgia. Fiz a conexão com o meu espetáculo, cada calça que eu apresento, esses vestíveis são pretexto para contar histórias do meu processo de criação como artista da dança.
Quando desmonto um trabalho que já foram produto de uma remontagem, quero propor este tecer contínuo, esse trabalho amoroso de Penélope que eternamente fia. Diferente de Penélope, não fiamos e desfiamos o mesmo trabalho várias vezes na esperança de que um dia ele fique pronto; montamos, desmontamos e remontamos pelo prazer de fiar, pelo prazer da pesquisa e do diálogo, para fazer deste ato um ato simbólico de troca, de pedagogia que se faz viva, presente. Uma Pedagogia da reconstrução. (Castilho, 2018, p.154)
No ano de 2023, como coordenador de Artes Cênicas da Fundação Cultural do Estado do Pará, trouxe a desmontagem para a Casa das Artes e convidei artistas para virem desmontar os suas obras. Criamos o Ciclo de Desmontagens, convidamos atores, atrizes, bailarinos e performers para falarem sobre os seus solos e monólogos. A desmontagem é um desnudamento; é como estar na Berlinda sem o vidro. O artista no palco com sua generosidade, inteligência e sua capacidade de criar compartilhando todo o seu processo de criação e nos fazendo refletir sobre os nossos processos de criação. Vejo a desmontagem como um origami, que ao desdobrar para saber como ele foi feito, em cada dobra e desdobra, conseguimos observar as linhas de processo de criação, enxergamos uma história nas marcas do papel. A desmontagem pode ser um desdobramento e dobramento da sua obra e nessas dobras encontramos histórias contadas por onde você passou.
A desmontagem como o outro lado do iceberg, o lado maior que está escondido debaixo do oceano, o lado submerso, ou seja, é o processo; é trazer as pessoas para mergulhar e ver o que tem em baixo do iceberg para ver o estado maior de processo de criação, o espetáculo é só a ponta do iceberg.

Figura 8 – Primeiras impressões da apresentação do solo “Desmontando Adams” – Primeiro dia de apresentação do solo “Desmontando Adams” no Espaço Reator. Fotografia: Nando Lima.
Audiodescrição da imagem: Foto em plano horizontal de apresentação cênica. Em um palco, observam-se diferentes artistas em cena, distribuídos no espaço. Os performers estão em posições variadas, sugerindo ação coletiva e compartilhamento de processo artístico. Os corpos apresentam gestos expressivos, indicando narrativa em construção. O espaço é simples, com poucos elementos visuais, e a iluminação destaca os intérpretes.
Desmontar Adams é trazer camadas, cascas e casulos, essa tríade criada inicialmente como disparador para a escrita desse projeto no PPGArtes da UFPA, onde vou a procura das minhas cascas que foram deixadas para trás, meus DNAs artísticos, os casulos que visitei em diferentes momentos da minha trajetória artística como a UNIPOP – Universidade Popular em Belém do Pará, Fotoativa, Escola Técnica de Dança da Funceb, Universidade Federal da Bahia e Viladança e o Teatro Vila Velha e atualmente no Mestrado em Artes e no Espaço Reator, onde posso criar os meus trabalhos em colaboração com artistas do Pará.

Figura 9 – Desenho de Caio Paixão conectado com as palavras disparadoras dos artistas convidados, no primeiro dia de apresentação do solo “Desmontando Adams” no Espaço Reator em Fevereiro de 2026. Imagem: Desenho de Caio Paixão; Palavras do 1º encontro.
Audiodescrição da imagem: Imagem em plano vertical de desenho artístico. A composição apresenta traços livres e palavras distribuídas pela superfície. Os elementos visuais e textuais se conectam, formando uma rede de ideias. O desenho ocupa a maior parte do enquadramento, com fundo claro.
REFERÊNCIAS:
Diéguez, Ileanna e Leal, Mara org: Desmontagem, Processo de pesquisa e criação nas artes da cena. Rio de Janeiro, 2018 Editora 7 letras.
Diéguez, lleana, comp. Des/tejiendo escenas :desmontajes: procesos de investigación y creación. México: UIA, INBA, CITRU, 2009. Descriptores Temáticos (palabras clave): Teatro mexicano– Siglo XXI. Procesos creativos. Procesos de investigación. Desmontajes.
NASCIMENTO, Evandro (org.). Jacques Derrida – Pensar a desconstrução. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
Autor: Danilo Bracchi
Habitante-Criador: Núcleo de Pesquisa Artística na Amazônia
E-mail: dbracchi1@gmail.com